O NOME DO MEU PAI É DOADOR

“Essa é uma maneira horrível de ser concebida”, diz a inglesa Caroline Halstead, a menina que aparece no colo da mãe na foto ao lado, hoje uma mulher de 25 anos, grávida de seu segundo filho. Caroline é fruto de uma inseminação artificial feita por sua mãe, que comprou esperma de um doador anônimo. O sentimento de Caroline, entrevistada pelo jornal britânico “Daily Mail”, é partilhado por pelo menos metade das 485 pessoas, entre 18 e 45 anos, que foram ouvidas pela organização americana Commission on Parenthood’s Future. Todas foram concebidas com esperma de doadores anônimos. Metade dos entrevistados afirma se sentir incomodada pelo fato de haver dinheiro envolvido em sua concepção, dizem imaginar se podem ser parentes de uma pessoa que se parece fisicamente com eles e temem se sentir atraídos sexualmente por alguém que pode ser seu parente.

O resultado do estudo, chamado “O nome do meu pai é Doador”, causou surpresa até mesmo entre os pesquisadores. Eles também entrevistaram 562 pessoas que foram adotadas quando eram crianças e descobriram que a mágoa é muito maior entre os filhos de doadores anônimos do que entre os adotados que, teoricamente, teriam sido rejeitados pelos pais biológicos. “Muitas pessoas pensam que, por terem sido fruto de uma gravidez muito desejada, esses filhos de doadores anônimos não se importam sobre os detalhes da forma como foram concebidos”, diz uma das autoras do estudo, a pesquisadora Elizabeth Marquardt. “Mas eles têm um imenso sentimento de perda por terem negado o direito de saber quem são seus pais.”

“Para mim, teria sido mais fácil aceitar que eu fui fruto da curtição de uma noite porque pelo menos teria havido o envolvimento de duas pessoas para que eu nascesse”, disse a inglesa Caroline ao “Daily Mail”. “Minha mãe me contou quando eu era pequena, mas me fez acreditar que isso era o nosso segredinho sujo, que ninguém deveria saber. Eu escondi meus sentimentos por muito tempo e acabei me distanciando da minha mãe. Sinto-me mais próxima do meu pai não-biológico, que foi quem me criou. Às vezes, tenho inveja da minha filha Charlotte, de 3 anos, criada em uma família convencional. Eu olho para ela e vejo as minhas características e as do Tom, meu marido. Ela é tão segura de si, do seu lugar no mundo. Já eu, quando me olho no espelho, vejo só metade de uma pessoa. É um fardo conviver com isso.”

No Reino Unido, cerca de 2 mil crianças nascem por ano graças a doadores anônimos de esperma. Nos Estados Unidos, as estimativas chegam até a 60 mil crianças concebidas dessa maneira anualmente. No Brasil, a prática ainda é vista com mais preconceito e a comercialização de material biológico é proibida. Não há uma lei que regule a questão do anonimato do doador, mas o Conselho Federal de Medicina recomenda que o sigilo seja garantido e que só possa ser aberto, entre médicos, em casos especiais. No Reino Unido, essa postura já está mudando. Desde 2005, os filhos de doadores anônimos têm o direito de saber a identidade de seus pais se quiserem. Mas quem nasceu antes dessa data ainda tem de conviver com o mistério.

A inglesa Narelle Grace, de 27 anos, é uma delas. Narelle sabe que o esperma de seu pai foi usado para fertilizar outras oito mulheres e, hoje se pergunta onde estarão seus oito meio-irmãos. “Aí pelo mundo há toda uma família que eu nunca vou conhecer e que nunca vai saber da minha existência”, disse Narelle ao “Daily Mail”. “Eu posso dizer com sinceridade que não importa quão desesperada eu esteja para ter um filho, eu nunca vou recorrer a um doador de esperma”, diz Narelle. “Eu não condenaria uma criança a crescer da maneira como eu cresci.”

Fonte: Revista Época 24/06/2010

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