A MAIOR SEDE DO MUNDO

Por Onaldo Queiroga*

O que você acha de um copo de água gelado?

Imagina para mim.

Quando acordei na UTI do Hospital Albert Einstein eu estava com uma traqueostomia, obviamente que eu não podia falar, nem também beber água. Foram longos 22 dias sem beber água, enfermeiros e enfermeiras apenas com um algodão molhado com água o passavam nos meus lábios para umedecê-los.

Nunca senti uma sede tão grande na minha vida. O pior é que havia uma televisão ligada na UTI, muitas vezes em canais de esporte e, que em plena pandemia da COVID-19, reprisavam jogos do vôlei da seleção brasileira, tanto, da feminina como da masculina.

Durante esses jogos apareciam cenas dos jogadores bebendo água, além de inúmeras garrafas d’água que apareciam no merchan que em curtos espaço de tempo faziam a propaganda do patrocinador. Era uma verdadeira tortura. Assistir várias pessoas bebendo água e diversas garrafas d’água ali na minha frente e, eu imóvel em cima de uma cama, porém, com a sensação de como se estivesse no deserto do Saara, sem uma gota de água para beber.

Parecia uma eternidade. Ao tempo em que sentia uma estiagem orgânica invadir meu âmago, também antagonicamente cada cena onde atletas bebiam fartamente água parecia gerar relâmpagos que transpassavam minha mente já tão enfraquecida.

No meio de tudo isso, vinha o pensamento de que quando eu me libertasse daquele tormento, compraria uma garrafa de um litro d’água gelada e tomaria, pacientemente, sentindo o gosto de cada gota d´água. Era um sonho que penetrava e naqueles instantes operava como esperança.

Era difícil demais viver tudo aquilo e não ter a possibilidade de beber água. Como era valioso, desejado e importante para mim esse líquido naqueles momentos.

A certa altura batia um grande desespero. A sede era incomensurável e, por meio de gestos eu rogava aos enfermeiros para molharem meus lábios, sequencialmente, de forma mais contínua. As poucas lágrimas desciam dos meus olhos. Nunca tive tanta vontade de beber água na vida. A gota d’água valia mais do que tudo naqueles instantes eternos de sofrimento.

No dia em que foi fechada a traqueostomia, não tive como cumprir, incontinenti, meu desejo de beber um litro todo de água, mas, sem dúvida, que os poucos goles de água que bebia, pareciam, não um litro, mas uma caixa d’água de cem litros de água.

Que alívio. Agora as lágrimas desceram em abundância, na forma de alegria e agradecimento a Deus. Era como se eu tivesse encontrado um oásis e ali bebesse toda água existente. Só Deus misericordioso para proporcionar um momento tão simples, mas tão grandioso e sublime.

Obrigado Deus!!!

 

Onaldo Queiroga é Presidente da ADFAS na Paraíba.

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