ESCAPISMO, ESCAPES E ESCAPADAS

Por Verônica A. da Motta Cezar-Ferreira*

Parece que a Covid-19 começa a dar trégua. Os restaurantes começam a abrir e as pessoas começam a sair. Onze meses de enclausuramento são demais. Mesmo com vocação, clausura é para poucos. Que sacrifício e que valentia! Até a vontade de preservar a vida exige esforço hercúleo.

A negação é a primeira defesa: Imagine! Não é tudo isso. Não é bem assim. Um vírus fatal? Que exagero!

Em seguida, o esbravejar furioso. Gritos ferozes: Quem inventou uma coisa dessas? Punhos fechados, esmurrando de almofadas a paredes: Que diabos estão dizendo? Quem inventou isso? Intriga da oposição. A mim não enganam.

No momento seguinte, as tentativas de fazer permutas com Deus, com promessas de sacrifício extremo para conseguir acordar do pesadelo.

Na canseira que se segue, vem a depressão. Não é possível. O que mais dá para fazer dentro de casa, indo de lá para cá? E ninguém está falando do tamanho da casa. Pouco importa. O que importa é o encarceramento, a falta de ar, não a falta de ar da Covid-19, mas a falta de ar, mesmo, de falta de rua. Ai, que vontade de dormir cedo e acordar tarde! E, ainda, dar umas cochiladas durante o dia. Única forma de ficar algum tempo fora. Fora do ar.

No início, o trabalho em home office ajudou. Afinal, tudo era novo. A montagem da estação, a adaptação ao esquema, a avaliação da internet, a escolha da plataforma. Quantos ajustes! Até ao novo vocabulário.

E logo, logo, surgiram as primeiras dificuldades: o excesso de número de horas em atividade laboral, as solicitações dentro e fora de hora, os fins de semana apagados do calendário.

Ufa! Que reviravolta! Isso sem contar que, embora com inúmeras e inegáveis vantagens, o trabalho remoto é muito mais cansativo do que o presencial, visual e mentalmente. Mas, afinal, cento e cinquenta, cento e oitenta, duzentos e dez, trezentos dias, e quantos mais, foram vividos e superados.

E, agora, como você está? Tomando coragem para voltar às ruas? Saindo a toda hora, mas fazendo questão de dizer, inclusive a si mesmo ou a si mesma, que continua em total isolamento? Dando uma escapadinha a todo momento, porque precisa disso ou daquilo, e não há saída, senão sair para comprar?

Mas, se você sai tantas vezes, como ficam os cuidados com a higienização dos sapatos? E das roupas? Será que é preciso mesmo deixar os sapatos de rua só para a rua ou dá para pôr um tapetinho com água sanitária à porta, e fica resolvido? E as roupas, precisam ser mesmo lavadas a cada saída? Assim, não há guarda-roupa que aguente. Talvez, baste pendurar pelo avesso e deixar em um cabide por três
dias, em lugar arejado, para que o vírus morra.

Afinal, dá para dar um jeitinho e burlar o danado? Esse vírus não há de ser mais esperto do que nós. Ou será? E, não apenas uma, mas várias vacinas estão sendo produzidas, simultaneamente, com rapidez e seriedade. O fato é que até a nossa foi desenvolvida com alta cientificidade, e é uma grande esperança.

Agora, a abertura está aí. Com distanciamento social nos restaurantes, nas igrejas, nas clínicas, no comércio, nos parques. O cinema e os shows voltaram em estilo drive-in. As crianças vêm retomando as brincadeiras com amiguinhos, após passarem tanto tempo brincando sozinhas. As escolas reorganizam-se para receber seus alunos. E você vai voltando ao seu local de trabalho.

Temos que voltar. Não dá para escapar. E será que usamos esses meses para pensar em como agir, minimamente, no novo tempo? Planejamos nossa nova vida? Encontramos alguma estratégia para enfrentar as mudanças do novo ciclo? Ah! Porque não há dúvida de que se já houve tantas, imagine como será daqui para a frente? Nada será como antes.

Você precisará ter cabeça fria e inteligência para pensar; equilíbrio emocional para não se desesperar à primeira dificuldade; livrar-se da fantasia de que “tudo será como dantes no quartel de Abrantes”; e preparar-se para enfrentar uma nova forma de relacionar-se e uma nova forma de trabalhar, quem sabe. Tudo isso com as necessárias precauções. Mas, também, não dá para pensar em válvulas de escape, em escapismos ou escapadas em relação às regras tão duramente aprendidas, para que não haja casos de recidiva, para que pessoas curadas não voltem a ser infectadas e a quarentena se reinstale com rigor maior. Vamos nos lembrar de que ninguém sabe, exatamente, o que vai acontecer, e que, portanto, não há termo final definido.

Nada de escapismo, de escapes ou de escapadas.

Depois da negação, da ira e das permutas com Deus, não dá nem para deprimir. Está na hora de encarar a realidade.

Finalmente, ela chegou: a vacina. E começamos a ser vacinados. Nunca jamais em tempo algum tivemos um recenseamento tão escancarado. Ouvíamos dizer que o país estava envelhecendo, mas só agora descobrimos – e estamos vendo – a maravilhosa população de experientes e vividos com que contamos. E que sorte das famílias que os têm em seu seio! E que o demonstram, levando-os, carinhosa e cuidadosamente, para tomar a injeção da esperança.

Mas todo cuidado é pouco.

É claro que estamos morrendo de vontade de abraçar, de beijar, de tocar, de falar de perto, mas não podemos brincar em serviço.

O vírus só está esperando a deixa e a brecha, porque ele… Ah! Ele não brinca.


*Verônica A. da Motta Cezar-Ferreira é advogada e psicóloga. Psicoterapeuta individual, de casal e de família, perita e consultora psicojurídica. Diretora de relações interdisciplinares da Associação de Direito de Família e das Sucessões (Adfas). Vice-Presidente da Associação Paulista de Terapia Familiar.

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