FAMÍLIA: O BERÇO DA REPÚBLICA

Observamos indignados as mazelas que imperam em nosso país. A república brasileira, que sempre foi tratada como um balcão de negócios ou um patrimônio de poucos, chegou a seu pior momento de saqueamento. Desvios astronômicos de recursos públicos, corrupção endêmica, ou até mesmo epidêmica, dentro das instituições públicas, pactuação diabólica entre agentes públicos e setores da iniciativa privada, um completo desprendimento do máquina estatal com a sociedade civil e uma sensação de que certas representações políticas e autoridades estavam acima do Direito.

A situação lembra uma narrativa em tempos pretéritos aonde um presidente perguntou a alguns políticos: e o povo, e o interesse da nação?

A resposta foi: Ah presidente, o povo….

A consequência disso é o risco iminente do colapso do Estado e sua completa perda de credibilidade. A sociedade civil fervilha de indignação, não suportando mais essa falta de senso cívico e de compromisso com o maior bem de uma República: seu povo!!!!!

A população começou a se mobilizar, movida pela revolta, ocupando os espaços públicos, indo às ruas para exigir mudanças, polarizando opiniões, o que é extremamente salutar, mesmo que em certos momentos a ignorância e o ódio irracional se manifestem. Também, nos centros urbanos, observou-se uma mudança na postura eleitoral, com novos personagens, mostrando que o cidadão “comum” quer botar um basta nessa situação, vislumbrando algo novo e são.

Porém, nós cidadãos temos que tomar ciência que a civilidade, os valores republicanos e a moral não são exigências exclusivas dos agentes públicos. O cidadão deve reconhecer o seu papel na defesa da coisa pública e na interação com os seus pares. Esse exercício republicano se faz no uso racional dos bens públicos, que não devem ser tratados como coisas de ninguém ou coisas particulares; no exercício da alteridade, pelo respeito com os concidadãos e suas diferenças; e no zelo do direito, das regras que mantem a ordem e urbanidade, o exigência mais preciosa da república.

Logo, não adianta falarmos de integridade moral dos agentes públicos se usamos mal, destruímos a coisa comum ou permitimos que isso ocorra. Se não respeitamos as regras mínimas de urbanidade ou até mesmo vivemos sobre o império da lei de Gerson, valorizando o jeitinho em prol do interesse egoístico, qualquer discurso de eticidade perde sentido. Ai identifica-se outra doença social: o cinismo!!!! Devemos lembrar, em especial, aos “novos liberais” de plantão, que a autonomia do individuo e da sociedade civil pressupõe responsabilidade.

Por fim, devemos lembrar que não é na escola que ensinamos cidadania, mas em casa, no espaço familiar. Aos pais, advirto que as suas atitudes erradas, dentro e fora do lar, aos olhos de seus filhos tornam-se exemplo. Parece clichê, mas nos pequenos erros, como desrespeito a filas, ao semáforo, à faixa exclusiva de ônibus, ao uso de vaga de estacionamento exclusivo ou apropriação indevida de pequenos bens no supermercado, justificam-se, ao longo da vida, grandes erros!

O poder familiar pressupõe alteridade cotidiana com seus filhos, que nos veem ou deveriam nos ver como faróis que guiam e referenciam sua conduta. Semear o erro em suas mentes é perpetuar a corrupção e a irresponsabilidade por mais uma geração!

Ser pai, ser mãe é um dever republicano.

*Danilo Porfírio

Vice-Presidente da Seção Estadual da ADFAS no Distrito Federal. Mestre em Direito pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho

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